Terça-feira - Manaus - 1 de dezembro de 2020 - 07:53

MANAUS-AM

Alta cúpula do governo envolvida na compra de respiradores superfaturados

Investigações e depoimentos apontam a influência exercida pelo governador Wilson Lima (PSC) e o vice-governador Carlos Almeida, na tomada de decisões dentro da Secretaria de Saúde.

REDAÇÃO TODA HORA

Publicado em 20 de outubro - 11:57

As investigações fazem parte da Operação Sangria

Foto: Divulgação/Secom

Investigações da Polícia Federal e depoimentos ao órgão apontam o envolvimento da alta cúpula do Governo do Amazonas, incluindo o governador Wilson Lima (PSC) e o vice-governador Carlos Almeida Filho (PTB), na compra superfaturada de 28 respiradores, no valor de 2,9 milhões, com sobrepreço de 133% e dispensa de licitação. 

As investigações fazem parte da Operação Sangria foi aberta no fim de junho, cumprindo 20 mandados de busca e apreensão e outros oito de prisão. Na ocasião, o principal alvo foi o governador Wilson Lima. Além disso, a então Secretária de Saúde, Simone Papaiz, foi presa na ação. No dia 8 de outubro, a polícia deflagrou a ‘Sangria 2’, com cinco mandados de prisão e 11 mandados de busca e apreensão contra seis investigados, entre eles Carlos Almeida.

Aponta-se a influência exercida pelo vice-governador no âmbito da Secretaria de Saúde após buscas e apreensões em 30 de junho. Ele já havia exercido o cargo de Secretário de Saúde durante seis meses, sendo responsável por indicar seu sucessor Rodrigo Tobias e o secretário executivo, João Paulo Marques. Mensagens por aplicativo apontam que a cúpula da Secretaria de Saúde se reportava frequentemente ao vice-governador para tratar de contratos na área de saúde, inclusive na efetivação de pagamentos e que, inclusive, Rodrigo Tobias se socorreu ao Carlos Almeida para verificar quais tipos de "arranjos" seriam feitos para adquirir os ventiladores para pacientes covid-19.

De acordo com a Procuradoria Geral da República (PGR), diligências realizadas após a divulgação de mídia local, em 20 de maio, de informação no sentido de que o vice-governador teria recebido dinheiro em espécie em um edifício da capital amazonense, onde funciona um escritório de advocacia. O local serviu para pontos de reunião do vice-governador com funcionários do alto escalão e outras pessoas ligadas à política amazonense, incluindo a deputada estadual Alessandra Campêlo (MDB), que foi votada como presidente da comissão que avaliou o impeachment de Wilson e Carlos Almeida, arquivado posteriormente.

O Ministério Público Federal aponta que "lançam ainda mais dúvida sobre os propósitos das reuniões realizadas por Carlos Almeida Filho no escritório de advocacia, tanto pelas circunstâncias em que os encontros ocorreram, especialmente pelo fato de sempre se ter registrado a presença de participantes com bolsas, maletas e mochilas, bem como lancheiras e vasilhames, algo deveras inusual". 

Depoimentos

O vice-governador Carlos Almeida Filho afirmou em depoimento à Polícia Federal que Wilson Lima (PSC) indicou a participação do empresário Gutemberg Alencar para atuar na Secretaria de Saúde. Alencar é apontado como responsável por intermediar a compra superfaturada dos ventiladores pulmonares. 

O empresário é ex-policial militar e possui antigo envolvimento com a política local. Foi chefe de Segurança do Governador Amazonino Mendes e é apontado pela imprensa como coordenador da campanha de Wilson Lima no interior do Amazonas.

De acordo com publicação do site UOL, depoimento do vice-governador aponta "que em março deste ano o governador o colocou em contato com Gutemberg; que manifestou ao governador suas resistências e desagrado em tratar com ele (...) Quando do início da pandemia, Wilson Lima o contatou afirmando que Alencar queria ajudar o governo durante a pandemia (...) Que sempre quis manter distância de Alencar”.

As declarações do vice-governador Carlos Almeida corroboram com o depoimento prestado pelo ex-secretário de Saúde, Rodrigo Tobias, também investigado na operação ‘Sangria 2’. Tobias informou à PF, que o operador de Lima era Gutemberg Alencar e que ele se apresentava como “indicado pelo próprio governador para orientar o governo onde haveria disponibilidade de respiradores para aquisição”.

O ex-secretário também relatou à PF a pressão que sofreu da subsecretária de Saúde Dayana Mejia e da ex-secretária de comunicação Daniela Assayag. Segundo as investigações, um dos sócios da empresa Sonoar, fornecedora de respiradores, é o médico e empresário Luiz Carlos Avelino Júnior, marido da ex-secretária de Comunicação do Estado. Ele foi preso temporariamente durante a segunda fase da Operação Sangria da PF, deflagrada no dia 8 de outubro.

Nesta segunda fase da operação Sangria, Alencar cumpriu dez dias de prisão temporária. O empresário informou à PF que não tinha relação de amizade com Wilson Lima. Em depoimento, obtido por O Antagonista, ele disse que chegou a participar da campanha de Wilson Lima fazendo a interlocução com agentes políticos no interior do Estado.

Alencar disse que não houve pedido do governador para a compra de respiradores da Vineria Adega ou da Sonoar, empresas envolvidas no esquema. E que sugeriu a importação dos equipamentos “por obrigação humanitária”.

Governo

Por meio de nota, o governo informou que “determinou rigor na apuração de todos os fatos relativos à compra dos respiradores e que está à disposição para prestar esclarecimentos aos órgãos que conduzem as investigações”. 

Ainda de acordo com o governo, “Carlos Almeida foi secretário estadual de Saúde entre janeiro e março de 2019. Entre abril do mesmo ano e 18 de maio de 2020, ele foi chefe da Casa Civil do Estado, onde tratava de demandas diversas de Governo, inclusive da saúde, por ter domínio da área pelo tempo em que foi gestor da secretaria. E, por esse período de gestão, Carlos Almeida deverá prestar os devidos esclarecimentos no âmbito da investigação”.